Symbiosis: instalação imersiva e interativa sobre relações ecológicas e urgência ambiental
Adrienne Firmo - curadoria 

Apresentação 
Vivemos um tempo em que as relações entre as espécies e os ecossistemas que sustentam a vida no planeta encontram-se sob ameaça por ações humanas desarmônicas e desequilibradas. A aceleração das mudanças climáticas, a extinção de espécies e modos de vida e a degradação dos ambientes naturais demandam não apenas respostas científicas e políticas, mas também a elaboração de novas formas de sensibilidade e pensamento, capazes de ensejar atenção às diferentes existências que habitam a Terra.
 Symbiosis configura-se como uma instalação artística imersiva e interativa que convida o público a uma profunda reflexão sobre as relações ecológicas, as interdependências interespécies e o impacto humano sobre os ecossistemas, sobretudo marinhos. O projeto parte, especialmente, da observação quanto à fragilidade dos recifes de coral, habitats vitais e ameaçados. Ao conjugar arte, ciência e tecnologia, a mostra transcende a contemplação, propondo experiência vivencial, participativa e reflexiva alinhada às urgências ecológicas e epistêmicas contemporâneas. 
A obra estrutura-se em torno de uma colônia recifal artificial, composta por pólipos artificiais lumino-sonoros, distribuídos em suportes que simulam distintos habitats. Esses organismos respondem aos estímulos ambientais e à presença do público por meio de variações cromáticas e sonoras, evocando o comportamento simbiótico e colaborativo típico dos recifes de coral. Essa interação permite que o público vivencie a harmonia ou o potencial colapso da colônia com base em suas ações, de modo a confrontá-lo com a evidência de que seus gestos e escolhas reverberam em cadeias relacionais. 
Conceptual e teoricamente, Symbiosis distancia-se do paradigma evolutivo convencionalmente focado na competição darwinista, em convergência com estudos contemporâneos de biologia simbiogênica e ecologia relacional, reivindica a simbiose como motor primordial dos processos vitais e princípio ético para a coexistência planetária. Essa perspectiva, que articula conexões intra e interespécies, adquire relevância política e ética ao problematizar o papel antropocêntrico que tem orientado historicamente as relações entre humanidade e natureza. A instalação materializa esse pensamento ao articular a presença humana, os pólipos artificiais e os sons e luzes emitidos por eles num processo dialógico e coevolutivo. 
Um dos aspectos centrais do projeto é sua capacidade de visibilizar dramas ecológicos submersos, como o branqueamento dos corais, cuja gravidade é proporcional a sua invisibilidade social e midiática. Ao criar um ambiente imersivo e responsivo, Symbiosis traduz um fenômeno complexo e silencioso de maneira sensível e simbólica, tornando-o experienciável e afetivo. Seguindo a ideia de uma redistribuição e compartilhamento do sensível, a instalação promove o que podemos chamar de política estética, pois não apenas denuncia, mas faz sentir o caráter relacional e interdependente da vida no planeta. O recurso a sistema lumino-sonoro responsivo promove um ambiente de mutualidade comunicativa entre organismo (mesmo que artificial) e visitante, onde humanos e não humanos compartilham uma arena comum de agência e efeito, assim, as performances dos pólipos artificiais mimetizam esteticamente a vulnerabilidade dos ecossistemas, promovendo conscientização e aliança empáticas. 
A obra evoca certo ideal renascentista de integração entre arte, ciência e tecnologia, ao propor experiência transdisciplinar que reúne referências da biologia marinha, oceanografia e genética artificial em diálogo com a linguagem artística. Além da experiência estética, Symbiosis propõe mediação educativa e instrutiva. Posters informativos, as estampas impressas e acesso a site via QR Code complementam a instalação, fornecendo conteúdos sobre o branqueamento de corais, a biodiversidade recifal, a biodegradabilidade de plásticos e projetos de conservação marinha. Por um conjunto de ações estratégicas busca não apenas sensibilizar, mas engajar o espectador na construção de consciência ecológica ampliada e de uma ética relacional a envolver espécies humanas, não-humanas e artificiais. 
O projeto incorpora um forte compromisso socioambiental, consciente dos resíduos inerentes à produção cultural, adota práticas sustentáveis e se compromete a realizar a compensação integral das emissões de gases de efeito estufa (GEE) geradas, por meio do plantio de árvores nativas da Mata Atlântica em parceria com instituição certificada. 
Impacto do projeto expositivo Symbiosis 
1. A consciência das inter-relações ecológicas e o conceito de simbiose como motor evolutivo 
Desde a formulação da teoria da simbiogênese, proposta por Constantin Mereschkowsky no início do século XX, expandida e consolidada cientificamente por Lynn Margulis, a partir dos anos 1980, é reconhecido que a vida evoluiu primariamente não pela competição, mas pela colaboração entre espécies distintas. Tal concepção rompe com os paradigmas darwinistas mais tradicionais e propõe uma cosmologia biológica fundada na cooperação e na interdependência, a enfatizar que as grandes inovações evolutivas ocorreram por meio de associações simbióticas, o que, ao ser transposto para a arte, permite narrativas alternativas sobre os modos de vida na Terra. Ao dar visibilidade experiencial às relações simbióticas, pela articulação entre a presença humana, os pólipos artificiais e os sons e luzes por eles emitidos, a instalação ecoa a ideia de ecologia profunda, proposta por Arne Næss (1973), na qual todas as formas de vida possuem valor intrínseco e interdependente, advogando, assim, pela harmonia entre natureza e sociedade e pela valorização equânime de todos os seres. 
2. Visibilizar o invisível: os recifes como metáfora e alerta – a arte como pactuação 
Um dos elementos mais impactantes do projeto reside na sua habilidade de revelar aquilo que nos parece oculto, a exemplo das condições que levam ao branqueamento dos corais nas águas oceânicas e nossa insistência à cegueira para as inter-relações. Ao conceber um ambiente imersivo e responsivo, Symbiosis torna tais fenômenos perceptíveis, experienciáveis e emocionalmente envolventes, ao desfazer as divisões entre o visível e o invisível, o sensível e o inteligível, a instalação promove, para usarmos um termo de Jacques Rancière (2005), uma partilha do sensível, atribuindo ao espectador a condição de coautor e corresponsável pela saúde do planeta. Assim, o caráter ficcional e especulativo das espécies criadas, longe de se afastar da ciência e do conhecimento, potencializa a imaginação ecológica (Ghosh, 2016), permitindo novos pactos entre o humano, o não humano e o artificial. 
3. Arte, tecnologia e natureza: o sensível como política ecológica 
A adoção de um sistema lumino-sonoro responsivo não só intensifica a experiência sensorial, mas também cria um ambiente de comunicação mútua, favorecendo a interação intuitiva e inclusiva. Essa dinâmica dá forma ao conceito de “assembleias de coisas”, proposto por Bruno Latour (2019), no qual humanos e não humanos interagem e contribuem conjuntamente para a construção de significados e ações no espaço compartilhado. Assim, o projeto entrelaça política e estética, por meio das performances dos pólipos artificiais que podem oscilar entre equilíbrio e falência, a depender da interação do público, traduzindo para a linguagem artística a fragilidade dos ecossistemas, a fim de mais que conscientizar, envolver ética e afetivamente (Morton, 2010). A presença dos painéis informativos, do vídeo documental e do acesso via QR Code ampliam e alicerçam os aspectos educativos, respondendo à demanda contemporânea por formas de conhecimento mais integradas e participativas (Nicolescu, 1999), que dissolvam as fronteiras entre arte, ciência e pedagogia. A proposta do projeto enquanto site specific, dialogando com a espacialidade e o público local, reforça o caráter situado e relacional da obra, propiciando uma ecologia estética (Guattari, 1990) que não se restringe à representação ambiental, mas atua na produção de subjetividades ecológicas e na indução de novos modos de habitar o mundo. 
Considerações Finais 
Symbiosis surpreende e envolve o público não apenas pelo encantamento tecnológico ou pelo apelo ambientalista, mas por propor uma vivência estética que performativamente encena os dilemas ecológicos contemporâneos, ao promover experiência ética, estética e afetiva de simbiose e inter-relação. Por meio do posicionamento da arte como prática especulativa e agente de transformação ecológica e social, contribui para desestabilizar as dicotomias entre natureza e cultura, humano e não humano, em um espaço de fruição ativa, no qual a convivência, o estranhamento e a curiosidade conduzem a uma experiência de pertença a uma complexa rede de relações que sustenta a vida em suas diferentes formas. Em um tempo marcado pelo colapso ecológico e pela fragmentação dos saberes, Symbiosis propõe, ainda, a retomada de um pensamento e um agir integradores, em que arte, ciência e tecnologia atuam como instrumentos de conhecimento, reflexão e encantamento. 
Referências bibliográficas sugeridas
 • Ghosh, A. The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable. Chicago: University of Chicago Press, 2016. • Guattari, F. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1990. • Latour, B. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. São Paulo: Editora UNESP, 2019. • Margulis, L. Symbiotic Planet: A New Look at Evolution. Nova York: Basic Books, 1999. • Morton, T. The Ecological Thought. Cambridge: Harvard University Press, 2010. • Næss, A. "The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement: A Summary". Inquiry, 16(1-4), 1973. • Nicolescu, B. Manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999. • Rancière, J. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005. 
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