Crédito: Rogério Albuquerque, 2022.
Nebulosas no espaço sideral e criaturas bioluminescentes das profundezas marinhas são observadas em contraste com a mais densa e misteriosa escuridão, onde esses corpos vagam. A luz emitida demarca seus territórios onde ocorrem reações que fascinam nossa imaginação e instigam a pesquisa científica. Meu interesse em fenômenos nos quais a luz se manifesta de maneira singular – da bioluminescência de organismos marinhos às “nebulosas-bicho” – se traduz em "nebula". Na instalação elaborada para o Planetário Municipal do Carmo, apresentamos três objetos lumínicos responsivos inspirados nas nebulosas Borboleta, Caranguejo e Raia, modelados a mão em filamento transparente. Na cúpula podiam ser ativados por sensores de gestos e através de suas fontes de luz emitir, em resposta às ações dos visitantes, combinações com intensidades, matizes e ritmos variados. As rotinas luminosas programadas remetem aos processos científico-poéticos de colorização de imagens capturadas por grandes telescópios[1].
No hall do planetário, fotografias e desenhos que remetem à corpos celestes e/ou organismos microscópicos, produzidas a partir de capturas da luz, refletem sobre esse processo criativo. Um vídeo com as etapas e referências pesquisadas era exibido durante o acesso às obras responsivas. Colaboramos ainda com a equipe do planetário na criação de uma sessão especial – "nebulosas" exibida durante a mostra – que se tornará parte da programação do espaço. Como atividades complementares, realizamos um bate-papo com os artistas na abertura e participamos das visitas guiadas do planetário, nos meses de maio, junho e julho/22. O desenvolvimento do projeto nebula, desde a sua concepção, produção, criação de suportes expositivos e divulgação foram doados ao espaço e à comunidade do entorno pela artista e seu colaborador. A mostra foi inteiramente financiada com a Bolsa CAPES/CNPq.
Selo ‘Carbono neutro”: zeramos nossa pegada de carbono mediante a contratação da empresa “Iniciativa Verde”[2]. Dedicada a preservação do bioma da Mata Atlântica, certificou o projeto nebula e fará o plantio de 25 árvores na Serra da Mantiqueira/SP.
Selo ‘Carbono neutro”: zeramos nossa pegada de carbono mediante a contratação da empresa “Iniciativa Verde”[2]. Dedicada a preservação do bioma da Mata Atlântica, certificou o projeto nebula e fará o plantio de 25 árvores na Serra da Mantiqueira/SP.
[1] LOWNDES, Coleman. How scientists colorize photos of space. Vox.
Disponível em: https://www.vox.com/2019/8/1/20750228/scientists-colorize-photos-space-hubble-telescope Acesso em: 14/10/22
[2] INICIATIVA VERDE. Disponível em: <https://iniciativaverde.org.br/>. Acesso em: 14/10/22.
Disponível em: https://www.vox.com/2019/8/1/20750228/scientists-colorize-photos-space-hubble-telescope Acesso em: 14/10/22
[2] INICIATIVA VERDE. Disponível em: <https://iniciativaverde.org.br/>. Acesso em: 14/10/22.
Concepção e produção: Sandra Kaffka
Suporte tecnológico e programação: João Flesch Fortes
Design de som: Daniel Gazana
Módulos e suportes: Estúdio Elan & Coupe Laser Lab | Tiago Pessoa
Mobiliário expositor do Foyer: Atelier Cenográfico | Ângela Barbosa & Beto Paiva
Impressão Fine art: Atelier Dois e Meio | Fio Monteiro
Agradecimentos: Renata Cruz, Marcos Coronato, Daniel Gazana e equipe do Planetário do Carmo.
Suporte tecnológico e programação: João Flesch Fortes
Design de som: Daniel Gazana
Módulos e suportes: Estúdio Elan & Coupe Laser Lab | Tiago Pessoa
Mobiliário expositor do Foyer: Atelier Cenográfico | Ângela Barbosa & Beto Paiva
Impressão Fine art: Atelier Dois e Meio | Fio Monteiro
Agradecimentos: Renata Cruz, Marcos Coronato, Daniel Gazana e equipe do Planetário do Carmo.
nebula : exposição-expedição [2022]
Indagar o firmamento, guiar-se por ele, estender o planeta até juntar céu e água no horizonte visível. Ir além da fronteira estelar do imaginável. Alcançar a criação do distante no aqui. Embaralhar criaturas marinhas e corpos celestes. Contornar o espaço-tempo. Submergir e emergir no encantamento de um cosmo a ser tocado, conhecido e tornado íntimo. Ousadias e façanhas da imaginação transformada em arte e ciência, por nós, homens e mulheres, poeirinhas das estrelas, ampliadas e modeladas por aspirações visionárias a adentrar o espaço brumoso do universo.
Em nebula, Sandra Kaffka, artista e pesquisadora, nos apresenta a seres habitantes do profundo psíquico e mnemônico, não apenas da artista, mas coletivo e ancestralmente compartilhado, a sonhar criaturas abissais e estelares, sentidas como familiares entre si pela distância com que as vislumbramos a pulsar e as buscamos onde quer que estejam entre névoas e anseios. A exposição, na procura desses organismos, torna-se, então, uma expedição, em que o corpo da artista, de diferentes maneiras – os dedos que desenham, os olhos que perscrutam, os braços que esculpem –, atua como se fosse composto por diversos integrantes de uma nau a desempenhar cada um sua função. A artista cria um tempo-espaço-laçada, ativado no aqui e agora, a fim de reter quimeras, em desenhos, fotos e objetos.
O encontro material e concreto, com esse outro tão distante, proporcionado pelo trabalho artístico, convoca à sociabilidade, por meio da interação com diferentes sistemas ou organismos, com o rudimentar e o tecnológico, o estático e o móvel, com o que não sabemos e o que supomos conhecer, e a desvelar sentidos e conexões nas trocas entre pessoas e objetos-seres. Desperta mundos e modos imaginados, realizando-os no instante em que com eles nos conectamos, a acentuar, também, a importância do lugar em que ocorre, no caso, o Planetário do Parque do Carmo, entendendo planetário como local por excelência do cruzamento entre arte, tecnologia, ciência e universo cósmico; e parque como espaço telúrico de sociabilidade entre pessoas e natureza, atestando, assim, a capacidade da arte de redefinir e transpor determinações espaço-temporais, fazendo vir a nós tempos e espaços míticos ou concebidos.
A exposição-expedição desdobra-se em três linhas de pesquisa plástica e material, o desenho, a fotografia e os objetos-bicho, formas e técnicas que cooperam mutuamente na construção da relação arte-público-espaço a fim de propiciar a experiência da arte como meio e modo de conhecimento e interação, instigando, ainda, a reflexão sobre ambivalências dos usos de tecnologias, promotoras, ao mesmo tempo, de individualismos e coletividades, bem como de comunicações, não apenas entre indivíduos e objetos, mas entre significados, invocando nossa atenção e cuidado para tudo aquilo com que coexistimos.
Os desenhos capturam formas e movimento dos seres fulgurantes que emergem do fundo escuro e oceânico do papel, individualizados em cada linha ou ponto de sua manifestação, figuras que singram, marcam e permanecem em nossas retinas.
As fotografias fundem tele e microscópio, apontam para o infinito, para uma trajetória que não diferencia dentro e fora, distante e próximo, ao entreverem a existência de corpos cósmicos em cada partícula observada e revelada.
Os objetos-bicho, por acréscimo e concreção de materiais, concedem a vivência onírica de se roçar, tocar de leve, e se comunicar francamente com o sideral e o abissal, com o fantástico, com o ser cósmico, aqui mesmo no ambiente terreno, no espaço-parque, como se criaturas espantosas se deslocassem de espaço-tempo infinito e sonial para uma visita à Terra.
Algumas vezes vistas como atividades antagônicas, por se supor que uma privilegiaria a fantasia enquanto a outra, a realidade, arte e ciência, no entanto, são trabalhos humanos indissociáveis em direção à criação e ao conhecimento, nutrem-se da imaginação, do desvendamento e da diligência. nebula, como exposição-expedição em busca do contato com criaturas astrais, amalgama o telúrico, o pelágico e o sideral, e proporciona a experiência de imergir nesse entre mundos, de nos familiarizarmos com o aguardado, mas inesperado, imaginário e, então, tê-lo e a suas criaturas como companhias na viagem entre as estrelas no planetário.
Adrienne de Oliveira Firmo
São Paulo, abril de 2022
São Paulo, abril de 2022
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