A morfologia poética de uma espécie inventada
Um trabalho artístico para seu criador acontece independentemente da situação em que se encontra, não sendo algo opcional mas, de absoluta necessidade. Conforme o tempo passa, percebo que a arte em sí, que para nada serve, "não é um instrumento de comunicação e não contêm estritamente nenhum tipo de informação" possui, no entanto, uma afinidade fundamental com um ato de resistência [1]. Talvez assim, desafie o tempo. Por isso, sigo no enfrentamento de uma produção de arte exigente e, ao mesmo tempo efêmera, que poderá desaparecer sem deixar traços, por ainda acreditar no poder de transformação e de sensibilização da arte frente à realidade. 
No decorrer do meu trabalho, projeto, experimento, comparo, analiso e faço escolhas que determinarão a forma da obra. A experimentação contínua é intrínseca à minha produção e ocorre como um processo mental indissociável da prática. Neste caso, diferente de uma pesquisa científica, não é determinante buscar uma solução, comprovar algo ou mesmo, exibir um resultado concreto. Tampouco justificar-me como artista. E ao me colocar perante a um novo processo de investigação, constato que também serei transformada. Esta aprendizagem talvez seja o resultado que mais se evidenciará durante o percurso. E como artista, em um doutorado em Poéticas Visuais, Práticas Artísticas projetei Symbiosis. Durante a pesquisa multidisciplinar fui infundida com dados e ideias que desafiaram meu pensamento crítico e/ou conceitos pré-estabelecidos sobre arte, educação pela arte e fruição estética. Mas, principalmente, me defrontei com diferentes maneiras de olhar para arte e outros campos do conhecimento frente aos tempos atuais. 
Symbiosis é portanto, uma ação artística que extende uma prática analisada e expandida no ambiente plural da universidade. E culmina influenciada por múltiplas disciplinas como o design, a biologia, a genética. a eletrônica e a ecologia. Esta opção estética e conceitual foi então viabilizada com a adoção de diferentes tecnologias como o uso de micro-eletrônicos de baixo custo e impressão 3D. A possibilidade de replicar modelos e expandir a ocupação fez parte das estratégias definidas com o objetivo primordial de compartilhar conhecimentos, entre os quais, os temas da propagação da luz na natureza. Neste projeto, se traduzem como um espaço que dá ensejo à contemplação, mas que também solicita presença, ação e colaboração – um espaço de convívio e quem sabe, de aprendizado. 
Reconheço que ampliar o trabalho para fora do atelie e contar com colaboração de colegas de outros campos  durante a pesquisa potencializou muito o projeto. Em paralelo, foi necessário enfrentar os desafios inerentes aos parâmetros estabelecidos para uma produção no ambiente acadêmico. Precisei situar esta obra e  embasa-la, antes mesmo de sua elaboração concreta. Enquadrar em modelos pré-existentes e realizar antecipações em análises conceituais e críticas são sempre desafiadoras para um artista durante o ato de criação. Exercício que é, e precisa ser, intrinsecamente livre. Ao considerarmos que a obra em si seria o resultado e a efemeridade de uma exposição surgiu a ideia do "livro-tese de artista". Criei então Symbiosis. Pólipos Artificiais Responsivos, 2025  [2] para agregar parte dos conhecimentos adquiridos durante a pesquisa. 
É o registro poético deste processo de criação e foi elaborado para ser compartilhado com a comunidade, mas também se tornou parte da obra. Trata-se de uma narrativa ficcional, sob uma perspectiva artística. E  ainda foi para nós, um guia prático para a criação dos sete tipos de objetos-bichos/espécies exibidas. As informações sobre a gênese do clado Lucidum estabelecem o fio condutor que orientou a atribuição dos comportamentos de cada espécie e suas interrelações. Estabelecemos assim, os parâmetros para a programação e sugerimos  hipóteses sobre as possíveis relações a se estabelecer entre a obra e o público de acordo com eles. Suas ilustrações se tornaram  ainda, fonte de inspiração para a criação de novas estampas impressas baseadas em capturas fotográficas dos pólipos criados.
Inspirada pelos livros Vampyroteuthis Infernalis de Flusser e Louis Bec [3],  Autobiografia de um Polvo, de Vinciane Despret [4], entre outros, criei o projeto gráfico e os textos de modo a evocar publicações científicas do passado que tratavam da morfologia animal. Apresento a "morfologia poética" dos pólipos responsivos lumino-sonoros e cada espécie, descritas sob uma óptica influenciada pela biologia e genética. E, embora seja uma narrativa ficcional, seus textos foram baseado em conceitos científicos atuais sobre a evolução das espécies. Ou seja, dados reais se mesclam ao relato poético e funcionam como norteadores conceituais, em um processo de retroalimentação entre teoria e prática, ficção e realidade.  
De modo que, no projeto expositivo final de Symbiosis, cada elemento exposto agrega uma forma de expressão para, no todo, narrar uma história que estimule a visitação, de maneira lúdica, intuitiva e acessível.   A opção por tornar os objetos responsivos com a projeção de luzes e sons foi uma escolha em que considerei a fruição possível à qualquer pessoa, de qualquer idade, conhecimento ou condição. Assim, as  duas salas da galeria podem ser visitadas como a um pequeno gabinete de curiosidades, onde atuar no habitat responsivo ou  não é uma vivência que pode ser aprofundada com a contemplação das estampas, por exemplo. Ou do poster com o cladograma que exibe a gênese dos pólipos artificiais e sugere como ocorreu este processo evolutivo artificial. O livro-tese é outro elemento a embasa-lo, além de um "fóssil" ou objeto-bicho estático, também modelado e impresso em 3D, que foi indicado como "recentemente extinto". Proponho com todos esses objetos provocações: o que se entende por "recentemente extinto" e quais as implicações do termo? O que é real e o que é expressão poética? O que é natural e o que é artificial? Isso é arte ou ciência?
Nosso objetivo, ao sugerir ao visitante a exploração dos dois ambientes é que  possa questionar e construir novos  significados, ao se sensibilizar sobre os temas que inspiram esta produção: as relações simbióticas entre espécies, os ecossistemas em desequilíbrio e as consequências de ações humanas frente à outras espécies. Ao propor um espaço de convivência que sugere o quanto somos "entrelaçados" com outras criaturas [4],  penso ainda, nas possibilidades da democratização do acesso à arte, por meio de uma fruição intuitiva e acessível. E, em como uma obra, expressa com liberdade, pode ampliar nossas formas de ver o mundo. Por isso, Symbiosis  foi idealizada não somente como oportunidade de deslumbramento mas, como um estímulo aos sentidos e a uma reflexão ampliada. 

Sandra Kaffka, Jun. 2026

*Nenhum dos conteúdos deste site foi elaborado por inteligência artificial.
[1]  KAFFKA, Sandra S. Potencial estético da luz na animação maquínica. 2025. Tese (Doutorado em Poéticas Visuais) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025. doi:10.11606/T.27.2025.tde-10092025-132405. Acesso em: 2026-06-19.  KAFFKA, S. Symbiosis. Pólipos Artificiais Responsivos está disponível em:
 https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27159/tde-10092025 132405/publico/SandraSuzanaKaffkaoriginalPPGAV9907306low.pdf
[2] DELEUZE, Gilles. O ato de criação. Palestra de 1987. Edição brasileira: Folha de São Paulo, 27/06/1999. Trad. José Marcos Macedo. Disponível em: https://lapea.furg.br/images/stories/Oficina_de_video/o%20ato%20de%20criao%20-%20gilles%20deleuze.pdf.
[3] FLUSSER, V. BEC, L. Vampyroteuthis Infernalis. Annablume Editora, São Paulo, 2011.
[4] DESPRET, Vinciane. Autobiografia de um polvo. E outras narrativas de antecipação. Trad. M. P. Duchiade. Bazar do Tempo Editora, Rio de Janeiro, 2022.
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